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  • Jorge Barros

Coronavírus: Ouse ficar mais próximo das pessoas no trabalho

Atualizado: 18 de Mar de 2020

Mas, gente, como assim aproximar-se das pessoas justamente agora?! A orientação é clara: evite contatos; evite abraços; evite reuniões; se possível, faça home office. É como se vivêssemos em tempos nos quais devemos inserir cada indivíduo dentro de uma bolha que o isole dos demais. Parece até que, neste momento, o melhor a se fazer é evitar o convívio entre as pessoas e adotar um modelo de exclusão social, certo? Errado! Agora é a hora de conviver, é a hora de se aproximar de pessoas.


Calma! Eu explico. Devo admitir que essa onda de isolamento por conta da pandemia, no primeiro momento, pareceu ir justamente contra as causas pelas quais venho lutando, dificultando a arte de conviver. Dediquei a última década a me aprofundar no tema das relações entre as pessoas, tanto na propagação de projetos de consultoria que estimulam o convívio entre diferentes pessoas em uma empresa, quanto no âmbito das relações sociais, sejam nos relacionamentos pessoais ou, por exemplo, entre clientes e fornecedores - o chamado marketing de relacionamento. Todos os meus esforços têm sido no sentido de aproximar pessoas, não afastá-las. Mas é interessante notar duas coisas: Primeiro que reclusão não é exclusão. E segundo que os fundamentos das relações entre as pessoas têm fatores que podem ser explorados e aproveitados da melhor forma, mesmo em cenários onde o contato físico deve ser evitado.


Para fazer sentido, é importante entender o que de fato é uma relação ou o que caracterizam as relações ou o convívio entre diferentes pessoas. Os conceitos possuem suas variações de acordo com cada autor ou estudioso, mas alguns pontos são comuns:


É via de mão dupla:

Toda relação, necessariamente, tem que ser bilateral, ou seja, todas as partes envolvidas devem ter o interesse genuíno pelos desejos do outro e a capacidade de se ajustar à contraparte. A relação é caracterizada pela mutualidade de benefícios. Ou seja, é imprescindível o querer bem e oferecer aquilo que o outro deseja ou precisa em cada momento. E nem sempre a gente deseja o que a gente precisa. Pode até ser que nossa preferência agora (ou desejo) seja manter a mesma rotina e o mesmo contato com as pessoas de quem gostamos. Porém, não é disso que elas precisam. Agora, evitar o exagero de contato ou proximidade física uns com os outros no ambiente de trabalho está mais para um ato de generosidade do que de egoísmo.


Se estende no tempo:

O que diferencia uma relação de uma interação é que a primeira se estende no tempo, ela dura. A relação ou relacionamento é um conjunto frequente e continuado de interações. E nossa relação com a empresa e as pessoas com quem trabalhamos costuma ser duradoura. Por conta disso, ela perpassa por diferentes fases da vida de cada um dos envolvidos. Estas particularidades vão fazendo com que, em cada um dos determinados momentos, as necessidades sejam diferentes. Respeitar estas necessidades específicas da crise que estamos vivendo significa respeitar a relação. Agora, é preciso diminuir a quantidade ou frequência das interações físicas, que são pontuais, para preservar a relação como um todo, para ser duradoura.


Mistura conflito e cooperação:

Se você pensa que o melhor formato de relacionamento é aquele harmônico que parece perfeito, está enganado. Talvez esta nem seja uma relação de verdade. As relações de profunda confiança são um misto de momentos de cooperação com momentos de conflito. Obviamente, quanto maior a frequência ou duração dos momentos de cooperação e harmonia, mais facilmente os envolvidos terão o desejo de fazer esta relação durar. No entanto, fugir de conflitos e evitar conversas difíceis pode custar a própria relação, que vai se enfraquecendo e se tornando superficial até que, repentinamente, se acabe. Por outro lado, nem preciso dizer o quanto, neste momento, um possível afastamento físico está muito mais para cooperação do que para distanciamento ou esfriamento da relação.


É poderosa na diversidade e inclusão:

Finalmente chegamos no ponto que mais me anima. As relações no trabalho, idealmente, devem estimular a diversidade e inclusão. E isso parece ser o oposto da orientação de saúde que estamos recebendo: isolar as pessoas. Mas não é. Veja: diversidade, diferentemente do que muitos acreditam, não significa juntar uma 'galera diferentona' num mesmo espaço físico e ponto. Diversidade, por conceito, diz respeito a fazer com que um grupo com diferentes pessoas reconheçam as diferenças uns dos outros e as respeitem. Já a inclusão vai muito além das regras sobre como tratar os outros. Ela se refere à forma como as pessoas se sentem tratadas, tem a ver com se sentirem importantes e valorizadas. Neste momento, uma forma de incluir, ou seja, de demonstrar o valor que cada pessoa tem, é preservando sua saúde e mostrando que cada vida importa mais que números.


Exige empatia: A arte do convívio exige olhar para o outro, enxergar o outro e, mais que isso: conseguir olhar pelas lentes do outro, se colocar no lugar do outro. Essa é a chamada empatia. Fácil não é. Mas é possível e transformadora, para si e para o outro. Um abraço é bom? É! Mas posso garantir que nada aproxima mais do que a empatia. Se um abraço é, fisicamente, um encontro entre dois corações, a empatia pode ser um encontro de almas. Neste momento, procure estar menos próximo dos braços e mais próximo das almas das pessoas com quem trabalha e convive. Vai te aproximar mais!

Faz reconhecer a si mesmo:

Se é difícil olhar para o outro ou mesmo se relacionar com os outros, não pense que é fácil olhar pra si mesmo. Mas é condição básica para desenvolver relações saudáveis. Para olhar para o outro, é necessário reconhecer a si mesmo. Aproveite seu momento com mais tempo em casa para olhar para o espelho da vida. Enxergue-se mais. Fique com você mesmo. Suporte o silêncio e se liberte das distrações. Cada um de nós temos nossos próprios preconceitos e outros obstáculos que dificultam a aproximação de outras pessoas. Negar isto é trabalho em vão. Reconhecer é um libertador primeiro passo muito importante para obter um convívio mais verdadeiro e harmônico com os outros.


É fundamental ter a consciência de que estamos vivendo uma fase que não deve durar para sempre. Vamos administrar essa crise. Vai passar. E vamos conseguir passar por ela com mais efetividade se passarmos juntos. E lembre-se: não é preciso estarmos próximos fisicamente para estarmos juntos. Ao contrário, tenho percebido uma coletividade de pessoas genuinamente interessadas em contribuir com o todo, em preservar a todos. A predisposição de cada um de nós e a forma que lidarmos com esta crise pode ser fundamental para nos aproximar ainda mais de outras pessoas e demonstrarmos o quanto são importantes para nós. Esse é o sentido do coletivo e do convívio.


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