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  • Jorge Barros

Como ter uma linguagem inclusiva sem usar pronome neutro?

Atualizado: 6 de jul.


"Quero falar de um jeito inclusivo, mas não quero utilizar pronomes neutros (como ile e elu), muito menos neutralizar palavras colocando a letra 'e' no final (como todes ou querides). É possível?" Talvez você tenha essa reticência por necessidades pessoais, funcionais ou até mesmo por trabalhar em uma organização que prefere não utilizar esse tipo de palavras em veículos corporativos. A resposta é sim. Existe um caminho possível e este artigo pretende lhe trazer dicas práticas de como ter uma linguagem inclusiva sem necessidade de "criar" palavras de gênero neutro.


Mas, antes de entrar nas dicas, vale lembrar que a língua portuguesa é viva, dinâmica e já passou por diversas alterações para se adequar ao tempo e espaço. Muitas destas mudanças se deram a partir do prévio uso coletivo, isto é, ao invés de alterar a linguagem para depois passar a utilizá-la, a ordem foi oposta: após (e justamente por) serem muito utilizadas, determinadas expressões passaram a integrar formalmente o idioma. É o caso, por exemplo, do pronome 'você', oriundo do formal 'vossa mercê'. Por isto, mesmo que você prefira não usar linguagem de gênero neutro, não precisa se opor ou ironizar as pessoas que a utilizam. Talvez elas sejam precursoras de um movimento que, assim como em outras épocas da história, culmine em mudanças concretas na linguagem formal. Afinal, mesmo não havendo ainda um consenso, é importante ressaltar que a discussão é fruto de profunda pesquisa em amplas fontes de estudo, envolvendo ativistas, profissionais de linguística e outras pessoas especialistas e estudiosas (se deseja saber mais sobre a origem do pronome neutro ILE, clique aqui e conheça Pri Bertucci, criador do sistema). Não é uma discussão superficial. Ela é séria e necessária, sobretudo porque está fundamentada em um propósito legítimo: acolher e incluir pessoas. E toda e qualquer língua foi criada por e para as pessoas da sociedade que a utilizam.


Agora vamos às dicas. Listo abaixo alguns exemplos bem práticos de como ter uma linguagem inclusiva no dia a dia sem uso de pronome de gênero neutro:


- Estou diante de uma platéia e quero dar boas-vindas, mas não quero dizer 'a todos' no masculino, visto que a platéia não é composta apenas por homens. Também não quero dizer 'a todos e a todas' porque posso excluir eventuais pessoas não binárias. E não gosto nem quero dizer 'a todes'. O que fazer? Simples: Eu posso dar boas vindas 'a todas as pessoas presentes' ou 'a toda a platéia' ou 'a todo público presente';


- Vou transmitir uma live e não quero dar boa tarde a todos nem 'a todes'. Que tal "boa tarde pra todo mundo que me assiste agora"?;


- Sou docente e quero saudar sem dizer 'alunes': Eu posso dizer 'Bom dia, turma!';


- Sou responsável por transmitir regras coletivas e não quero dizer 'a todes': Eu posso dizer que as regras valem para 'todo o grupo';


- Estou em uma festa e não quero dizer que conheço 'todes que estão no camarote': Eu posso dizer que conheço 'toda galera que está no camarote';


- Se sou especialista em recrutamento e seleção, ao invés de 'um engenheiro' no masculino, eu posso recrutar 'uma pessoa formada em engenharia'. Em caso de cargos específicos, ao invés de dizer que a vaga é para 'coordenador' (no masculino), eu posso dizer que é para uma 'pessoa coordenadora'. A palavra 'pessoa' pode ajudar muitas vezes, mas repare que não é preciso aplicá-la em todos os cargos. 'Gerente, analista ou assistente' já são palavras neutras. Não é preciso anunciar vaga para 'pessoa gerente'. Apenas vaga para 'gerente'.


Em síntese, nos exemplos acima, você percebe que consegue facilmente resolver 80% das questões (Pareto) simplesmente adotando palavras coletivas (como: todo mundo, turma, pessoal, grupo, galera, público) ou adicionando a palavra 'pessoa' antes de adjetivos, características ou atribuições (pessoa coordenadora, pessoa engenheira) ou, quando possível, fazendo adaptações, como 'profissional de engenharia' e afins.


PLUS - Dica de ouro: Sabe aqueles artigos definidos (o, a, os, as) e os artigos indefinidos (um, uma, uns, umas)? Pois bem. Evite-os quando perceber que são desnecessários. Por exemplo, ao invés de dizer que 'os palestrantes e cerimonialistas costumam ficar à vontade no palco', diga apenas 'palestrantes e cerimonialistas costumam ficar à vontade no palco'. Toda vez que notar que determinado artigo não faz falta na sentença, prefira eliminá-lo. Isto porque, na língua portuguesa, são eles que determinam e limitam o gênero da palavra que vem a seguir (e não necessariamente a terminação da palavra em si, como muitos acreditam). Embora possa parecer que palavras femininas terminam sempre em 'a' (menina) e masculinas em 'o' (menino), isto não funciona para todas as palavras. Existem aquelas que terminam em 'a' e são do gênero masculino (o dilema, o cinema), assim como aquelas que terminam em 'o' e são do gênero feminino (a tribo, a libido). E não adianta acreditar que basta colocar 'e' no final da palavra para que o gênero se torne neutro (como menine ou queride). Existem palavras terminadas em 'e' que são masculinas (o elefante) e outras que são femininas (a alface). Percebe como, independentemente da terminação da palavra, o que costuma definir seu gênero é o artigo que vem antes delas? E os artigos geralmente são binários, ou seja, se limitam em masculino ou feminino. Por este motivo, às vezes, é mais efetivo eliminar o artigo do que modificar a terminação da palavra. Importante frisar que esta dica não tem a intenção de deslegitimar os estudos da neutralização a partir da terminação em 'e'. Apenas visa mostrar o poder que os artigos desempenham na construção de gênero para que você possa usar com mais atenção.


  • Isto vale também para palavras que terminam com estes artigos, como, por exemplo, pronomes indefinidos (algum, alguma, alguns, algumas). Mesmo que não queira utilizar pronomes de gênero neutro, quando possível, evite também pronomes indefinidos, se não fizerem falta. Exemplo: ao invés de dizer que 'alguns adolescentes são introvertidos', prefira dizer que 'existem adolescentes introvertidos'. Pronto: basta eliminar 'alguns' ou 'algumas' e já neutralizou o gênero.


ATENÇÃO: Cuidado para não se deixar seduzir pelo discurso leviano de quem diz que é contra o gênero neutro por ser amante da língua portuguesa. Não há motivo razoável para acreditar que o gênero neutro destruiria nosso idioma, uma vez que o próprio latim, matriz da língua portuguesa, originalmente, possuía gêneros feminino, masculino e neutro. Repare que as pessoas que usam essa desculpa rasa são as mesmas que (assim como eu e, provavelmente, você também) utilizam diariamente expressões como: 'usar o mouse ou pendrive no notebook para acessar um site ou apresentar um slide', 'deletar ou fazer backup de um arquivo', 'contratar um designer ou um personal trainer', 'tomar um drink', 'dar um feedback', 'escolher entre comer hambúrguer com ketchup ou algo mais light' ou 'usar o look perfeito pra encontrar o crush que deu match no app'. Isso sem contar as palavras aportuguesadas que incorporamos ao nosso idioma, como do italiano, que nos trouxe as palavras muçarela e calabresa e tantas que vieram do francês, como sutiã, balé, abajur, champanhe e champignon. Se você usa essas expressões diariamente sem medo, mas se opõe ao uso da linguagem de gênero neutro sob o argumento de que "ama a língua portuguesa", é bom avaliar se o motivo de sua resistência é realmente o amor ao idioma ou apenas um preconceito disfarçado de amor. Afinal, se a língua portuguesa, assim como todas as línguas, foi criada pelas e para as pessoas que a utilizariam, isto significa que a linguagem deve estar em função ou a serviço das pessoas, e não o contrário. Então, por maior que seja o respeito que você tem à língua portuguesa, isto não deveria ser maior que o respeito às pessoas, visto que a língua só existe para melhorar a vida das pessoas e ser um instrumento para estas se sentirem representadas, pertencentes e incluídas na comunicação. A língua existe para aproximar pessoas, não excluí-las.


Este texto tratou especificamente da linguagem neutra, que é apenas um dos diversos pilares da comunicação inclusiva. Que tal saber mais, conhecer e se aprofundar? O mundo está em constante evolução e você pode e deve fazer parte disto.

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