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  • Foto do escritorJorge Barros

Falar sobre sexualidade combina com ambiente de trabalho?

Atualizado: 6 de dez. de 2022

É comum a gente ouvir que "Empresa é lugar de trabalho, ambiente profissional e que sexualidade não tem nada a ver com isso. Cada um faz o que quiser entre quatro paredes, mas, no trabalho, o que importa é a competência, certo?" Errado! Explico. Por favor, leia o que conto abaixo:


Um menino gay que nasceu na periferia de SP nos anos 80 e que nem ele mesmo sabia que era gay (até porque ele também não sabia ainda o significado do termo 'gay' nem o de 'sexualidade') já era apontado como gay pelas pessoas ao redor por perceberem sua "inadequação" de comportamento. A única coisa que ele sabia é que algumas coisas em sua forma de se expressar e manifestar eram totalmente contrárias ao que aprendeu ser o padrão correto. Com o passar dos anos, ele entendeu o que significa ser gay, o que significa sexualidade e qual era a sua (mesmo que à contragosto). Isso não lhe parecia muito bacana quando se dava conta do que representava diante de seu contexto familiar: evangélico e militar. No entanto, por parecer ser, desde sempre, um cara mais amadurecido que o considerado normal para sua idade e também muito sensato diante do olhar dos outros - equilibrado e moderado - entendeu que, "apesar" de sua inadequação sexual, poderia encontrar formas de, aos poucos, no decorrer dos anos, expor sua sexualidade à sociedade, porém de forma discreta, dando-se "ao respeito", sabe? Não sendo só "mais um desses gays" ditos como estereotipados. Dedicar-se um pouco acima da média aos estudos e esforçar-se pra ser (ou pelo menos parecer ser) um profissional um pouco mais genial que o esperado parecia ser um excelente caminho pra evidenciar à sociedade o quanto ele poderia ser relevante aos negócios de qualquer empresa por onde passasse.


Maravilhoso isso, né? De forma míope, parece que sim. Principalmente às empresas que possam fazer uso dessa pessoa como recurso inesgotável. Esse gay na descrição aí acima sou eu. Sim, por muitos anos da vida incorri nesse equívoco de acreditar que o melhor caminho era entregar mais, de forma sobre-humana pra me sentir digno de aceitação. E, na verdade, poderiam ser muitos outros meninos gays que estão por aí. Agora é aquele momento em que rompe-se o som dos violinos de quem estava tendo uma visão romântica da história. E então a gente começa a ouvir o barulhinho das moedas caindo. Sim, o comportamento desse tipo de gente (que fui por muito tempo) pode ser muito útil ao sistema corporativo quando o contexto social faz com que determinado grupo de pessoas sinta-se tão em dívida, que acredita ter obrigação de ser duas, três, cinquenta vezes melhor que as demais pessoas que vê: mais produtivo, mais capacitado e mais genial para, finalmente, ser legitimado diante de todos. Assim mostra que pode compensar, e muito, apesar de ser o que se é. A regra é mais do que acertar: é superar qualquer acerto possível. Se houver uma falha mínima que, para outras pessoas seria encarada como banal, para ele certamente é motivo de auto-penitência, além da certeza da necessidade de entregar em triplo da próxima vez. Já pensou o quão rentável isso pode ser às empresas? Imagina se todo mundo se sentisse na obrigação de ser infinitamente mais produtivo, responsável, inteligente e competente do que deveria... Galinha dos ovos de ouro, não? Afinal, os demais recursos das empresas são finitos: capital e bens. Mas o nível de entrega e engajamento das pessoas podem parecer recursos ilimitados. Mega diferencial competitivo pra qualquer empresa, não?


O relato acima é pessoal e ensimesmado. Retrata este Jorge que vos fala, mas não apenas ele. Existem milhares de outros Jorges ao nosso redor. E, se tivermos um pouco mais de abertura mental, vamos expandir e enxergar para além de homens gays, mas também a todas as pessoas que fogem do padrão hetero(cis)normativo. E isto se aplica não apenas estas, mas também às pessoas negras, mulheres em cargos diferentes do "padrão" que normalmente seriam atribuídos a elas e todos os grupos historicamente minorizados ou excluídos do ambiente corporativo e do sistema econômico devido a seus marcadores. Eu ainda tive o privilégio de ser um homem branco cisgênero, mas pense o quanto isso pode ser mais cruel em pessoas com marcadores sociais mais interseccionados. Pense aí em uma mulher preta bem próxima a você, por exemplo. Quanto ela costuma acreditar que precisa ser mil vezes melhor e mais competente que a média pra ser legitimada.


Então, muito humildemente, os recados que gostaria de deixar às empresas, empregadores, recrutadores e gestores são: primeiramente, parabenizar a todas as empresas que já perceberam quão importante é incluir estas pessoas minorizadas nas organizações (e que bom que já estão se movimentando bastante pra isso), tanto pelo impacto social na engrenagem econômica inclusiva, que é o mais importante, como também pelos vários benefícios aos próprios negócios de vocês (já comprovados e evidenciados em diversas pesquisas, mapeamentos e indicadores que não cabem aqui neste artigo, mas terei prazer em compartilhar com quem se interessar em conhecê-los). Fico verdadeiramente feliz por estes feitos e avanços nas empresas. Mas, em segundo lugar, gostaria que vocês também se atentassem à forma como estão acolhendo estas pessoas em suas empresas. Cuidem para que o ambiente e a forma de acolher não potencializem ainda mais essa cruel e patológica sensação de que elas precisam se provar infinitamente melhores em tudo. E, acima de qualquer coisa, acreditem que nem tudo se resolve com implementação de processos, políticas, regras de conduta, letramento, cartilhas, metas e indicadores. Claro que tudo isso também é imprescindível ao sistema de gestão da diversidade, mas mobilizem os seres humanos que coexistem em suas empresas (pois é... não quis chamá-los de líderes, liderados e pares, mas de pessoas). Estimulem-nas para que, às vezes, estas pessoas façam apenas o simples movimento de olhar para o lado, olhos nos olhos, e dizerem umas às outras "vem cá, tá tudo bem se algo não for 100% perfeito e nem tudo depende só de você, existem outros fatores. Você é muito mais do que resultados. A sua essência, sua vida e sua trajetória talvez tenham muito mais a nos ensinar do que esse monte de skills que a gente adotou por aqui. TamoJuntes!" É isso. Abracem-se mais! E o mais curioso disso tudo você talvez nem vá acreditar, mas acredite: é justamente aí nesse tipo de abraço que o resultado vem (também para os negócios)! Incrível, né? Repito: abracem-se mais! <3


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