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  • Leo de Paula

Pretos na Pandemia

O ano era 2020 e fomos colocados imersos nessa pandemia coletiva, individualizada no âmago de cada alma, e continuamos aqui em pleno fervor de 2021. Enquanto isso, as florestas, pastos e montanhas queimam, as relações interpessoais também, o entendimento de que somos parte de um organismo único e potente, nosso planeta, me parece ainda não ter tido força suficiente para aterrar. Quando convidado a escrever sobre o agora e o que vem me atravessando neste momento, sobre a perspectiva da minha jornada como artista, empreendedor e estudioso do comportamento humano, a primeira pergunta que veio foi: O que é preciso abandonar?

Considerando um recorte da existência humana, me questiono ‘Por que ainda estamos vivendo dentro de uma sociedade racista?’ O racismo institucionalizado na vida cotidiana e diária nos revolta, nos assola e, pior, nos agride mental e psicologicamente, nos forçando a visitar a violência despejada sem dó nem piedade sobre as nossas narrativas pretas. Escrevo deste lugar, com todos os benefícios conscientes de “passabilidade” dentro de um contexto maior sobre o tema. E assim, imerso na consciência que construí com muita educação e diálogos em casa, no deitar do colo de mãe, no cheiro das nossas comidas, nos enfeites e adornos coloridos em nossa vestimenta, no nosso cantar, na nossa alegria e na nossa história coletiva de sermos quem somos. Sabemos entrar, sabemos transitar, temos a mandinga dos capoeiras, somos a base da economia deste país. Aceitemos.

Temos narrativas mais asquerosas e violentas, reportadas diariamente, ignoradas como trajetórias menos relevantes para estarem em discussão em todos os fóruns sociais. Tudo começa na nossa ignorância de não conhecermos verdadeiramente a nossa história brasileira, de como essa terra foi sendo construída ao passo destes 500 e poucos anos quando aqui chegamos. Tudo tão fulgaz, imediato e cego. Me canso demasiadamente a ter a pachorra de entender uma agressão racial, seja ela qual for. Não fomos ensinados a isso, como diz Andre Muato em sua arte, “somos a vanguarda da expressão”. Aceitem. Considerando o Brasil como palco dessa reflexão, temos os melhores jogadores, temos os melhores cantores e cantoras, os ritmos que nos acompanham na pele preta, na conexão com a dança ancestral que vibra em nosso sangue a qualquer chamado de um tambor, de um pandeiro, nas rodas e esquinas deste país. Aprendemos a sorrir na dor e ensinamos a superar e a reinventar caminhos, estratégias. Fomos treinados a viver e somos abençoados e protegidos por nossos ancestrais.

Com isso, vamos avançando, ocupando mais espaços, defendendo nossas conquistas individuais e comunitárias, construindo um legado materializado em nomes como Gilberto Gil, Conceição Evaristo, Djamilla Ribeiro, na dona Nem que me atendeu ontem em uma ligação para dar alguns conselhos. Nos enxergamos uns nos outros, isso é nosso. Nos reconhecemos pretos, mas muitos de nós ainda não. Requer tempo para curar toda a construção social que foi inserida em nossas mentes e em nossas trajetórias de sobrevivência, mas é possível avançar mais e mais. Como? Levar nosso dinheiro e a nossa energia para pessoas que nos representam na vida, que nos acolhem em nossas dores e em nossas reciprocidades. Estabelecer a escuta de qualidade sobre a trajetória do outro, dos tantos brancos que em seus corpos carregam sangue preto, em convidar seus amigos pra uma conversa e por ai vai… Não se constrói nada sozinho. Podemos nos dar as mãos, quando, prioritariamente entendemos que existe um processo energético, cultural, econômico, histórico e nominal para honrar a todas e todos que por esse solo passaram, lutaram, plantaram, floriram, sangraram e dançaram para que a vida se perpetuasse.

O sistema está colapsado e este momento pandêmico é um excelente momento para revisitar nossas caminhadas e pensarmos um novo pensar, um novo agir. Quantos precisaram vir antes de nós para estarmos aqui, colhendo desse fruto de expansão e crescimento? Já parou pra pensar nisso? Ou ainda estamos estagnados no Eu? De ordem prática, valorize nosso povo com dinheiro e comunicação, com entendimento de quem somos. Convido a todos que realmente queiram estabelecer mudanças neste cenário racista que nos assola a exercitar comunicações não violentas, a estudar sobre o racismo, a buscar o entendimento para o tema que é muito mais amplo e que se trata de uma perspectiva branca construída ao longo de muitos anos de exploração dessa terra Brasil, e não somente pessoas pretas em seus mimimi’s. Como podemos ajudar na evolução social que ainda estamos construindo? Convido você que leu este texto até aqui a fazer essa reflexão comigo. Quem compõe sua jornada?

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